Evolução por linhas tortas: a saga dos X-Men nos cinemas

Porque somos feitos de narrativas, parece não haver razão maior para a humanidade do que entender o seu próprio tempo. Dias que lembramos ou esquecemos, histórias que só aconteceram uma vez, mas que se alteram a cada interpretação. Os quadrinhos e os filmes se completam ao eternizar a passagem do tempo como um vislumbre de oportunidades. E se os super-heróis são o centro do entretenimento atual nas telas de cinema, alguma coisa se deve ao entusiasmo de Bryan Singer, diretor e produtor de vários filmes dos mutantes X-Men. Singer praticamente reinventou a fórmula de adaptar personagens de histórias em quadrinhos. No entanto, o fez com uma equilibrada mistura entre a ficção exagerada típica dos gibis e o desejo racional de uma sociedade mais equilibrada e justa. Claro, tropeçou nalgumas vezes; inclusive para além das telas tendo recebido diversas acusações de condutas inadequadas. O foco aqui, porém, são seus filmes baseados em personagens da Marvel Comics.

X-Men: O Filme (2000) abriu caminho para uma geração de fãs ansiosos por uma versão feita de carne e osso (além, é claro, de muitos efeitos especiais) dos seus heróis do papel. Aquele foi o momento para conhecer as intenções distintas entre dois velhos amigos. Por um lado, o futuro compartilhado, como pretendia o professor Charles Xavier; por outro, o futuro conflituoso, como aspirava Erik Lehnsherr, também conhecido por Magneto. Texto e subtexto lidam com a discriminação às minorias, um assunto surpreendentemente atual no início do segundo milênio.

Com X-Men 2 (2003), Singer retomou suas atenções para as demandas de poder, afinal o mundo cada vez mais parecia ser regido por juntas políticas, como a União Europeia ou o Mercosul, ambas concebidas na década anterior. As grandes corporações transnacionais, tão influentes quanto as entidades governamentais, só iriam receber alguma atenção em adaptações futuras. Político e divertido em doses precisas, talvez seja a produção dos mutantes que melhor se sustenta sozinha. A ambiguidade vai além de heróis e vilões: mesmo o mundo civil tem a perder quando explodem desigualdades até então latentes.

Porque se dedicou a revisitar o mais conhecido super-herói de todos os tempos em Superman: O Retorno (2006), Bryan Singer não pôde completar a trilogia. Assim, X-Men: O Confronto Final (2006) acabou nas mãos do pouco contundente Brett Ratner, que apenas pegou os trabalhos anteriores de Singer num desfecho necessariamente épico. O duelo conceitual deu lugar ao confronto físico. Ratner confundiu poder com força.

Anos depois, chegou o momento de contar a origem dessa história com X-Men: Primeira Classe (2011), de Matthew Vaughn, no qual Bryan participou da criação da história, além de ser produtor. A primeira classe do título revela que as posições ideológicas de Xavier e Lehnsherr percorreram um caminho muito próximo, não raro indistinto, mas cuja eventual ruptura seria inevitável. A coluna de Xavier se partiu, quebrando também a amizade com Lehnsherr.

Em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), novamente coube a Wolverine aproveitar a oportunidade de evitar um amanhã sombrio, com a arbitrária perseguição das minorias mutantes. Seu retorno no tempo abre a possibilidade de uma realidade alternativa, mas isso não significa que o presente-futuro foi apagado. Singer retorna à cadeira de diretor e como que termina sua visão pessoal dos grupos de heróis e vilões apresentados na primeira década do século XXI. Uma última vez, estão reunidas aquelas versões específicas dos mutantes com destaque para Xavier, Wolverine, Tempestade, Vampira, Ciclope, Jean Grey, Magneto e Mística.

X-Men: Apocalipse (2016), por sua vez, trata das questões sociais de maneira lateral. O mutante original se revela como um artifício ruim para discutir problemas típicos do mundo contemporâneo. Um enredo ruim engana o próprio Singer na condução deste seu último filme sobre os mutantes enquanto diretor. Entidades como os governos aparecem de modo aleatório, prejudicando o desenvolvimento dos dramas individuais – uma característica que enriqueceu sobremaneira as películas anteriores.

E X-Men: Fênix Negra (2019), dirigido pelo estreante em longas-metragens Simon Kinberg, assenta-se claudicante sob uma nuvem de poeira. Produzido por Singer, o filme viria a ser o último dos X-Men sob o controle dos estúdios Fox, antes de serem adquiridos pela gigante Disney. Nem mesmo a excelente trilha sonora de Hans Zimmer, carregada em tons pesados e quase melancólicos, contribui para salvar a história de si mesma. Uma reinterpretação confusa de X-Men: O Confronto Final, que deixa muitas pontas desnecessárias em aberto ao mesmo tempo em que tenta ser a conclusão de uma fase. As personagens ficam estagnadas em esboços de motivações pessoais apesar da ameaça extraterrestre se apresentar como a antagonista principal.

A linha narrativa nos filmes dos X-Men condensa (e condena!) a perseguição aos diferentes, fato assimilado ao longo de história humana. Temas críticos e, ainda hoje, mal resolvidos como o preconceito (social, racial, de gênero…) foram a base para as histórias em quadrinhos criadas por Stan Lee e Jack Kirby em 1963. Entre erros e acertos, estas películas buscam o seu lugar num gênero cinematográfico que ainda não conta com uma variedade artística relevante em suas bases. Tanto os filmes de super-heróis quanto a humanidade ainda têm muito para evoluir.

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