RoboCops: ética, tecnologia e violência social em épocas distintas

Não há qualquer possibilidade de discutir a violência social sem passar pela autoridade do Estado. Quando Paul Verhoeven lançou RoboCop – O Policial do Futuro (1987), os Estados Unidos viviam sob o segundo governo do então presidente e ex-ator Ronald Reagan. A partir da concepção liberal da época, Reagan investiu sobremaneira nos gastos militares, um cenário propício à ideia de um policial parte máquina / parte humano. Logo, RoboCop surge como um produto de uma empresa que faz as vezes do funcionário ideal: sem memórias, sem dúvidas, sem reclamações.

robo87O filme do cineasta holandês procura o equilíbrio entre duas discussões inevitáveis na revolução tecnológica que se passava poucos anos antes da virada do milênio. Na primeira, temos o indivíduo absorvido pela sociedade na figura do Estado. Quando o policial Alex J. Murphy está disposto a arriscar sua vida em nome de uma corporação, o recado aos de sua espécie surge de modo didático: somos resultado da equação materialista de Karl Marx, na qual o trabalho do proletariado se transforma no lucro do capitalista burguês. Toda violência na Detroit de um futuro próximo se origina nesta exploração da massa por uma grande corporação: a Omni Consumer Products (OCP). A segunda controvérsia envolve a ética tecnológica, premissa de um debate público e privado que se prolonga em rumos perigosamente desconhecidos. O ciborgue denominado RoboCop tem de evitar o conflito interno entre a máquina e o humano. Seu passado em estado de espera; sua mulher e filho vivem próximos. Ainda assim, o corpo metálico lhe dá sinais explícitos da distância que deve manter.

Peter Weller (Alex J. Murphy / RoboCop), a exemplo de Arnold Schwarzenegger na franquia O Exterminador do Futuro, exerce a complicada tarefa de uma não-atuação. Quando transformado em ciborgue, a dramaticidade lhe escapa do rosto, preservando ainda mais a reificação proposta por Paul Verhoeven.

robo14A película ganhou duas sequências e uma série televisiva nos anos 1990, com alguns poucos momentos interessantes. Entretanto, na segunda década do novo milênio, o diretor José Padilha voltou à personagem com outros dilemas. RoboCop (2014) tem como linhas condutoras a ética e o livre-arbítrio, deixando em segundo plano os embates políticos, já explorados por Padilha em Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2010). O diretor brasileiro, qual Verhoeven também um estrangeiro filmando na América do Norte, distingue-se por uma insistência em fazer valer seus pontos de vista, sejam sobre os direitos e deveres dos governos, a liberdade de pensamento ou os rumos da tecnologia.

As atitudes e posturas dos agentes da imprensa tanto em Tropa de Elite 2 quanto neste RoboCop recebem abordagens críticas: apresentadores fanfarrões que conhecem uma verdade fragmentada e parcial. Curioso ainda o fato de Padilha ter iniciado sua carreira como documentarista, dirigindo o longa-metragem Ônibus 174 (2002), sobre o sequestro que ocorreu no Rio de Janeiro, com ampla cobertura em tempo real por diversos veículos de comunicação. De alguma forma, a mídia ausente de pudores consolidou a narrativa de seus filmes de ficção seguintes.

Qual o significado de ser humano numa existência condicionada por terceiros? A justiça está acima do bem e do mal? São algumas perguntas que pairam sobre a visão de Padilha. A atuação de Joel Kinnaman (Alex Murphy / RoboCop) escorrega um pouco ao carregar no drama para discutir estas questões, mas a responsabilidade também cabe ao diretor. A desconstrução simultânea da máquina e do homem incomoda menos pelo significado substantivo do que pelo visual adjetivo. Talvez seja aquela culpa necessária que o cineasta brasileiro terá de carregar por mexer numa obra sem pontas soltas qual fizera o cineasta holandês quase três décadas antes.

Em ambas as produções, RoboCop é um herói necessário que ninguém ambiciona ser. Uma personagem fictícia e distópica, calcada na possibilidade cada vez mais imediata de frequentar a realidade de todos nós.

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