40 anos sem Ian Curtis: uma vida em sacrifício da arte

Era somente um pequeno quarto escuro e esfumaçado. Mais um entre vários outros dentro de uma pensão, ocupada principalmente por homens maduros e recém divorciados, ao contrário de mim. À 1h da manhã, a fumaça do meu cigarro subia para o alto, dançando silenciosamente, diante de uma escrivaninha com a televisão desligada. As únicas luzes que entravam no recinto, além do visor do CD Player, vinham das fracas lâmpadas na entrada da pensão.

ian-curtis-smokingHavia descoberto a banda inglesa Joy Division há poucos meses, logo após o rompimento abrupto e indesejado com uma garota da universidade. Estava sozinho, tomando uma garrafa de vinho quente, olhando para o nada, para o teto, para uns pôsteres de Baudelaire  e Kurt Cobain colados na parede. O vazio da existência me encarava de volta, enquanto a canção Isolation, do álbum Closer, invadia meu espírito de nuvens negras.

Acredito que todo artista, seja ele escritor, poeta, cantor, ou pintor que comete suicídio está, voluntariamente ou não, praticando uma espécie de auto-imolação; não somente como um derradeiro ato de desespero, mas também como uma última apresentação, uma última obra de arte, na qual a entrega da própria vida em sacrifício se constitui num espetacular manifesto de liberdade da essência humana contra todas as amarras do mundo material – gesto este que pode ser também interpretado como religioso, no sentido de religar a essência humana com o divino, em analogia aos sacrifícios praticados no budismo, ou nas próprias religiões abraâmicas, desde a antiguidade.

No dia 18 de maio de 2020 completaram-se 40 anos do suicídio do poeta, músico e vocalista do Joy Division, Ian Curtis que, consumido pela culpa e pela tristeza, enforcou-se com uma corda de varal, sozinho em casa, aos 23 anos de idade, poucos anos após formar sua banda de pós-punk (ou rock gótico) em fins dos anos 1970, na grande Manchester. Na noite anterior, depois de assistir sozinho a um filme do cineasta alemão Werner Herzog, havia conversado nessa mesma casa a sós com sua esposa, Deborah Woodruff, que estava temporariamente vivendo com os pais, juntamente com a filha pequena do casal. Deborah, apesar de amorosa e respeitosa com Ian, estava irredutível: queria o divórcio. Ofereceu-se, entretanto, para passar a noite com Ian, que recusou.

Depois que a esposa saiu, Curtis passou a madrugada sozinho, escutando músicas de Iggy Pop, olhando fotos da esposa e da filha, e escrevendo uma longa carta para Deborah. Lembro-me de que, na mesma época em que vivi em um quarto de pensão, devastado, sombrio, também escrevi algumas cartas ou relatos expressando, em maior ou menor grau, sentimentos de abandono, solidão, divisão, alienação, frustração, amor em ruínas e impotência diante do peso da vida, em harmonia total com as letras e melodias do Joy Division.

joy-division-closer-coverCerca de 1 ano antes disso, assim como fez Curtis quando era ainda mais jovem, interrompi meus estudos para somente trabalhar no serviço público. Eu entregando intimações e cumprindo outras ordens judiciais nas periferias do sul do Brasil. Em resumo, aborrecendo inúmeras pessoas com questões inoportunas. Ian, de outro lado, em sua repartição pública, ajudava vários cidadãos do meio-norte da Inglaterra a encontrar um novo emprego, a fazer um curso, ou a receber qualquer outro tipo de ajuda social. Também dava apoio a pessoas com limitações físicas, tais quais epilepsia, condição neurológica muito debilitante e estigmatizante, da qual ele próprio, posteriormente, descobriu ser portador.

Sua doença foi se agravando rapidamente, a partir de sua predisposição à depressão, ao escapismo e ao belo, maviosamente registrada nas composições intimistas da banda Joy Division (semelhantes àquelas de Renato Russo na Legião Urbana). Curtis Já havia tido uma overdose de remédios anteriormente quando foi parar novamente no hospital pelo mesmo motivo, cerca de um mês antes de falecer. O casamento de Curtis com Woodruff, aos 19 anos de idade, havia passado por muitos altos e baixos, após cinco anos de relacionamento e uma filha de cerca de 1 ano.

Tinha largado o emprego público para se dedicar somente à carreira artística, sofrendo com falta de dinheiro e involuntariamente colocando maior pressão sobre a esposa, que precisava trabalhar com maior intensidade para pagar as contas. Ian estava há alguns meses envolvido com uma jornalista belga, Annik Honoré e a vida boêmia e sem limites (com muita nicotina, álcool, sedentarismo e poucas noites de sono adequado) cobrou seu preço, agravando muito seu quadro epiléptico e corroendo seu casamento por dentro.

ian-curtis-love-wll-tear-us-apartIan Curtis – uma espécie de poeta romântico ou simbolista; um Lord Byron dos anos 1970; um Rimbaud sobrevivente dos escombros da Guerra Fria – completaria 24 anos em 15 de julho de 1980. Sua banda, Joy Division (nome que remete aos bordéis nazistas durante a Segunda Guerra), lançou apenas um álbum enquanto Curtis estava vivo, o famoso Unknown Pleasures, de 1979. Logo após sua morte, foi lançado o segundo disco, o sublime Closer, que já estava praticamente pronto para ser lançado, com a imagem de uma sepultura em sua capa, antes mesmo do suicídio do vocalista.

Em julho de 2020 eu completo 38 anos de idade, ainda devoto da poesia de Curtis. Assim como ele, sou um admirador das letras, do belo, do inalcançável. Mas ainda não sei se seu suicídio foi, de alguma forma, premeditado, para que também fosse sua última apresentação artística. Assim como ele, ando em silêncio. Mas não… Talvez o último poema de – e para – Ian Curtis foi composto por sua esposa, Deborah, que em seu memorial inscreveu o seguinte epitáfio – famoso por ser também o título de sua canção mais famosa: “Love Will Tear Us Apart”; em português, O Amor Vai Nos Separar. Também foi dela seu póstumo grito de socorro contra a brutalidade da sociedade, ao responsabilizar a falta de atendimento adequado no serviço público de saúde, e não a suposta desatenção dos companheiros da Joy Division, pela morte do marido.

DICA CULTURAL

Control, um tocante filme inglês de 2007 sobre a vida de Ian Curtis.

SAIBA MAIS

https://rollingstone.uol.com.br/noticia/rapida-dolorosa-e-reflexiva-vida-de-ian-curtis-do-joy-division-40-anos-apos-o-suicidio/
https://radiocomercial.iol.pt/noticias/100438/a-vida-de-ian-curtis-em-dez-cancoes https://www.imdb.com/name/nm0193350/bio
https://www.joydiv.org/iancurtis.htm https://www.theguardian.com/film/2007/sep/22/periodandhistorical
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-94896/
https://www.factinate.com/people/tragic-facts-ian-curtis/
https://www.nme.com/news/music/joy-division-16-1242125

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s