Diálogos interdisciplinares da História e rupturas epistemológicas da historiografia

Uma das questões mais interessantes relativas à História Cultural diz respeito às rupturas epistemológicas do fazer historiográfico, num diálogo permanente da História com outras disciplinas, como a Geografia, a Sociologia, a Economia, a Psicologia, a Antropologia e, especialmente, a Literatura, ao longo de muitas e muitas décadas – desde o séc. XVIII.

Por exemplo, o italiano Giambattista Vico (1668-1744), propunha uma espécie de nova epistemologia, ao colocar em pauta a ideia de que os feitos humanos não podem ser considerados apenas como fatos, da mesma maneira como a Física lida com fenômenos naturais, exigindo assim uma ciência diferente. Tal ciência, chamada por Vico de Ciência Nova, analisaria os fatos feitos pelo ser humano, partindo “do certo para a verdade”. Utilizando-se da filosofia e investigando os feitos humanos, esta Ciência Nova seria uma forma de saber racional e verdadeira, resultante da aproximação da Filosofia com a Filologia (LENZI; VICENTINI, 2002, p. 203). Muito embora não pudesse ser considerado um estudioso linguístico-estruturalista da forma como concebemos hoje, Vico já afirmava que:

“O ‘cientista novo’ deveria, a partir dos estudos dos materiais de linguagem, construir uma compreensão racional dos feitos humanos, do contrário haveria o risco de, por exemplo, ler-se os poemas homéricos como relatos plenos de acontecimentos verídicos ou de tratá-los apenas como frutos da imaginação literária. Na dignidade XVII, Vico afirma a importância dos ‘falares vulgares’ para o estudo da história dos povos antigos: ‘Os falares vulgares devem ser os testemunhos mais graves dos antigos costumes dos povos, celebrados ao tempo em que estes formaram as próprias línguas'”.

Dessa forma, as fontes (no caso de Vico, o material filológico, os mitos e os poemas antigos) por si só trazem apenas fatos; é na interpretação das fontes (através de uma abstração racional, filosófica) que se deve buscar os feitos humanos por conseguinte, a verdade sobre eles. Diz Vico sobre essa interpretação no Livro I d’A Ciência Nova: ‘E [disso resulta] que a primeira ciência que se deve aprender é a mitologia, ou seja, a interpretação das fábulas (pois, como veremos, todas as histórias gentílicas possuem fabulosos princípios), e que as fábulas foram as primeiras histórias das nações gentílicas'” (LENZI; VICENTINI, 2002, p. 203-204).

Durante o séc. XIX, outras contribuições isoladas foram acrescentadas à construção de um saber historiográfico amplo e interdisciplinar, a partir de nomes como Thomas Carlyle e Wilhelm von Humboldt, entre outros. Este, em 1821, postulou que:

“o historiador será passivo caso se limite a reproduzir os fatos e, o que seria ainda pior, acredite que nisso consiste sua tarefa. O sentido não está previamente dado, mas é uma construção do historiador; tal construção, todavia, também está longe de se restringir a um arroubo romântico vulgar. Há algo de contemplativo na busca da verdade histórica que, nas palavras de Humboldt, ‘pode ser equiparada às nuvens, que somente ganham forma à distância dos olhos” (MARTINS, 2010, p. 71-72).

Já no início do séc. XX, com a consolidação da chamada Nova História, a partir da criação da Escola dos Annales na França nos anos 1920, o desenvolvimento de uma forma de pensar a História sistematicamente, a partir de estruturas sócio-econômicas e narrativas culturais, em vez da superfície fática dos acontecimentos políticos, tornou-se a regra dentro da academia.

Foram inúmeras inovações metodológicas e aproximações disciplinares nas quais a nova historiografia buscou respaldo. No caso da metodologia, a História encontrou parâmetros de cientificidade nas Ciências Sociais e Exatas, através da formalização e modelização, explicação de hipóteses, pesquisa em grupo, técnicas de análise linguística e semântica, estatística sociológica e modelos antropológicos, etc.

Em relação à pesquisa, os historiadores avistaram no horizonte objetos de estudo tão interessantes como atitudes perante a vida e a morte, rituais e crenças, estruturas de parentesco, formas de sociabilidade, modos de funcionamento escolares, etc., bem como as mentalidades, as ideias e conjunturas, ou psicologia histórica (CHARTIER, 1991). Lenzi e Vicentini (2002, p. 209) lembram que, ao longo do séc. XX, na comunidade acadêmica, tornou-se natural escrever uma História que leva em conta fontes literárias, costumes, cultura, linguagem, grupos sociais, permanências e mudanças, saberes e poderes.

Passou-se a se fazer (H)histórias das mágicas, dos vencidos, das práticas e representações culturais, das mentalidades, das coisas quase imóveis, dos gêneros, da circularidade das culturas, das trocas simbólicas, dos homens e suas relações com a natureza e a geografia, dos climas, das estruturas de pensamento e linguagem, das ações dos grupos na construção de suas próprias identidades, dos nascimentos e das mortes, das curvas de preços, enfim, várias (H)histórias diferentes e, muitas vezes, divergentes, mas que mantinham em comum um bom grau de distanciamento da História Positivista (LENZI; VICENTINI, 2002, p. 209).

Nesse contexto de diálogo interdisciplinar, o historiador inglês Peter Burke (2008, apud PACHECO, 200-?), afirma que, no caso específico da História Cultural, por exemplo, esta apresenta alguns problemas de ordem epistemológica e, ao mesmo tempo, também propõe possíveis soluções. Por serem produzidas e selecionadas com alto grau de condicionamento, as fontes, o tratamento, os métodos e as conclusões desse tipo de historiografia possuem confiabilidade relativa, sendo acusados de impressionismo. Como alternativa, Burke coloca que os historiadores podem utilizar estudos seriais, com análise cronológica de documentos (longo tempo) ou análise de conteúdo para os textos (frequência de tema, palavra, relações, associações) – muito embora ainda persista o problema dos significados, o que remete à também espinhosa análise do discurso.

Os marxistas e economicistas, por sua vez, criticam os chamados historiadores culturalistas, porque estes supostamente escrevem uma História “solta no ar”, sem uma base sócio-econômica. Além disso temos o problema da homogeneidade e dos conflitos culturais em uma mesma sociedade. Por outro lado, o italiano Antonio Gramsci afirmava que a classe dominante controla a sociedade não só pela economia, mas também por suas ideias. Desta forma, como definir a homogeneidade cultural, como devemos estudar as tradições culturais, a cultura erudita e popular, que por sua vez são mutáveis? Neste sentido, o historiador francês Georges Duby faz a proposta de um movimento para cima e para baixo, dos objetos e práticas culturais (BURKE, 2008, apud PACHECO, 200-?).

Peter Burke (2008, apud PACHECO, 200-?) continua sua linha de raciocínio, afirmando que a História Nova, especialmente a História Cultural – no seu contato com outras disciplinas e nas suas transversalidades epistemológicas – coloca em evidência uma série de diferentes paradigmas, de conceitos e pesquisas, conhecidos comumente como Teoria Cultural, e baseados em inúmeros autores, tais quais Baktin, Elias, Foucault, Bourdieu, entre outros. Assm sendo, ela propõe a discussão de ideias como carnavalização, subversão, penetração da alta cultura pela baixa, polifonia, processo civilizador, conceitos dos contrários, progresso e evolução, descontinuidades e rupturas, invenção cultural, redes de ideias, práticas, microfísica do poder, reprodução e distinção cultural, identidade social, etc.

Outros paradigmas epistemológicos/metodológicos da Nova História Cultural são os estudos das práticas (práticas religiosas diferentes, da teologia; da fala diferente da lingüística; do experimento diferente da teoria; esportes, maneiras a mesa, consumo, fala, viagem, leitura, etc); das representações (a construção do imaginário social, reflexo das estruturas sociais e a criação das idéias e das representações da natureza, da nação, do outro sobre a mesma realidade); da memória (transformações sociais e suas relações com a identidade; memórias distorcidas e contaminadas pela cultura, grupos e momentos, etc.); da cultura material (alimentos, vestuários, habitação, como formas de identificação cultural, posição social e representação dos grupos em dado tempo e de como são a casa, a gastronomia, a cidade, os prédios, etc); do corpo (elementos culturais nos aspectos físicos, gestos, higienes, gênero, dicotomia mente e corpo, etc.) (BURKE, 2008, apud PACHECO, 200-?).

Também não é possível esquecer que o próprio conceito de cultura é problemático, o que nos remete à próxima questão. Com a chegada do pós-estruturalismo nas universidades, em meados dos anos 1970 e 1980, a historiografia não saiu imune. O historiador francês Roger Chartier (1991) aponta que houve uma espécie de crise geral das ciências sociais, percebida no abandono dos sistemas globais de representação, como o estruturalismo ou o marxismo. Desta forma, embora a disciplina histórica propriamente não estivesse em crise, surgiram incertezas diante do esgotamento das alianças tradicionais da História com outras disciplinas (geografia, etnologia, sociologia, etc.), das técnicas de tratamento e dos modos de inteligibilidade que davam unidade a seus objetos de estudo. Isto significaria uma espécie de lado reverso da moeda, inerente à multiplicação dos campos de pesquisa.

Em 1988, a Revista dos Annales apontou que havia chegado o tempo das incertezas, através da reclassificação das disciplinas, questionando as primazias estabelecidas, os caminhos tradicionais de circulação da informação, bem como os padrões epistemológicos dominantes, baseados nos estruturalismos e nas quantificações. Já em 1989, David Harlan, em artigo da American Historical Review, afirmou que a Literatura mergulhou os estudos históricos numa grande crise epistemológica, questionando a crença preestabelecida numa passado fixo e determinável, comprometendo a possibilidade de representação histórica, bem como prejudicando nossa capacidade de localização no tempo (CHARTIER, 1994, p. 101).

Para Chartier, esses diagnósticos revelam que o desaparecimento dos modelos tradicionais de compreensão e dos princípios de inteligibilidade costumeiramente aceitos pelos historiadores representam uma grande mudança para a historiografia. Isto porque a História na academia era baseada no reconhecimento de estruturas operantes por trás dos acontecimentos econômicos, sociais e discursivos, ao mesmo tempo na percepção de que os atores na superfície da História possuem apenas uma percepção parcial e subjetiva dessas estruturas. Por outro lado, era consenso entre os historiadores de que a disciplina deveria se submeter ao rigor metodológico dos números e séries, numa espécie de paradigma epistemológico “galileano”, como afirmou o historiador Carlo Ginzburg (CHARTIER, 1994, p. 101).

Na aproximação epistemológica com a Antropologia e Sociologia, o papel do indivíduo se viu restaurado nas narrativas de construção dos laços sociais. As estruturas deram lugar às redes; os sistemas de posições às situações vividas; as normas coletivas paras as estratégias singulares; tudo resultando na chamada Micro-História (CHARTIER, 1994, p. 102).

O objeto da História, portanto, não são, ou não são mais, as estruturas e mecanismos que regulam, fora de qualquer controle subjetivo, as relações sociais, e sim as racionalidades e as estratégias acionadas pelas comunidades, as parentelas, as famílias, os indivíduos (CHARTIER, 1994, p. 102).

Outra questão que abalou o ofício dos historiadores foi a consciência crescente de que seu discurso é sempre uma narrativa, através de reflexões de acadêmicos do peso de Michel de Certeau, Paul Ricoeur, Jacques Rancière, entre outros, a respeito dos procedimentos literários pelos quais um discurso se subtrai à literatura e se atribui um estatuto de ciência. Para Paul Ricoeur, “toda a história, até mesmo a menos narrativa, mesmo a mais estrutural, é sempre construída a partir de fórmulas que governam a produção das narrativas” (CHARTIER, 1994, p. 103).

A Literatura continua presente nos “quase-personagens” com os quais os historiadores lidam, tais quais “classe”, “sociedade”, “mentalidades”, etc., dotadas de propriedade de heróis singulares ou indivíduos ordinários. Mesmo as temporalidades históricas continuam fortemente dependentes de um tempo subjetivo, construído pelo historiador/narrador, colocando, por exemplo, atos particulares dentro de um enredo maior (tempo longo) – como no livro do historiador Braudel sobre o Mediterrâneo. No cotidiano ou na ficção, as decisões e ações dos indivíduos continuam sendo explicados por uma lógica de causalidade (CHARTIER, 1994, p. 103).

Para lidar com essa aparente confusão epistemológica oriunda do diálogo profundo com a Literatura, entre outras disciplinas, Chartier (1994, p. 105-106) propõe algumas questões. Em primeiro lugar, a historiografia deve lutar contra a irredutibilidade da experiência ao discurso, prevenindo-se contra o uso descontrolado da categoria “texto” na descrição de práticas, táticas e procedimentos. Já em resposta à constatação de que os interesses são socialmente construídos pelos discursos, através do acesso a recursos desiguais (linguagem, conceitos, materiais, etc.), Chartier afirma que uma História preocupada com o desvelamento desses sentidos ligados à Sociologia deve ter como objeto a tensão entre as capacidades inventivas dos indivíduos e das comunidades, os constrangimentos, as normas, as convenções limitadoras, as relações de dominação, os pensamentos possíveis, etc.

Por outro lado, percebemos que as obras não têm sentido estável no tempo nem nas sociedades, possuindo significações plurais e móveis, que são construídas “na negociação entre uma proposição e uma recepção, no encontro entre as formas e motivos que lhes dão sua estrutura e as competências ou expectativas dos públicos que delas se apoderam” (CHARTIER, 1994, p. 107). Para Chartier,

O que toda História Cultural deve pensar é portanto, indissociavelmente, a diferença pela qual todas as sociedades, por meio de figuras variáveis, separaram do cotidiano um domínio particular da atividade humana, e as dependências que inscrevem de múltiplas maneiras a invenção estética e intelectual em suas condições de possibilidade. Reancorada assim firmemente nas Ciências Sociais, a História nem por isso pode evitar um desafio: superar o confronto, no fim estéril, entre, de um lado, o estudo das posições e das relações e, de outro, a análise das ações e das interações. Ultrapassar essa oposição entre “física social” e “fenomenologia social” exige a construção de novos espaços de pesquisa onde a própria definição das questões obriga a inscrever os pensamentos claros, as intenções individuais, as vontades particulares, nos sistemas de constrangimentos coletivos que, ao mesmo tempo, os tornam possíveis e lhes põem freios (CHARTIER, 1994, p. 107).

Sendo assim, convém lembrar que, mesmo através dessas aproximações disciplinares e epistemológicas da História com outros ramos do saber, que muitas vezes faz a historiografia parecer uma operação de ficção, a intencionalidade histórica possui ambição de conhecimento, construído através de tratamento de dados, produção de hipóteses, crítica e verificação de resultados, validação da adequação entre o discurso e seu objeto, etc. Ao contrário de um romancista, um historiador é dependente do estudo dos vestígios do passado, bem como dos critérios de cientificidade e operações técnicas do seu ofício (CHARTIER, 1994, p. 110).

Neste sentido, os historiadores devem estar conscientes da existência de uma “máquina de guerra cética”, tal como nomeada por Carlo Ginzburg, a qual supõe que a História não é capaz de dizer a realidade, nem separar o verdadeiro do falso. Como afirmou Michel de Certeau, a História possui uma tensão fundamental, sendo, ao mesmo tempo, uma prática científica e produtora de conhecimento, porém dependente das “variações de seus procedimentos técnicos, dos constrangimentos que lhe impõem o lugar social e a instituição de saber onde ela é exercida, ou ainda das regras que necessariamente comandam sua escrita” (CHARTIER, 1994, p. 110-111). Como sugere Roger Chartier, a resposta para a compreensão adequada do fazer historiográfico, diante das incertezas decorrentes do aprofundamento do diálogo interdisciplinar e das rupturas epistemológicas, deve ser o contínuo comprometimento com a intenção de verdade – mesmo que, algumas vezes, desmesurada, mas certamente fundamental. Portanto, é necessário permanecer vigilante para não deixar o campo livre ao falseamento da História e da memória (CHARTIER, 1994, p. 110-112).

FONTES

CHARTIER, Roger. O mundo como Representação. Estudos Avançados, vol. 5, n. 11. São Paulo, jan.-abr. 1991. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141991000100010&script=sci_arttext>. Acesso em 4 maio 2019.
CHARTIER, Roger. A História Hoje. Revista Estudos Históricos, v. 7, n. 13, FGV: 1994. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/1973/74393>. Acesso em: 5 maio 2019.
LENZI, Eduardo Barbosa; VICENTINI, Max Rogério. Vico e a História como Ciência. Acta Scientiarum, v. 24, n. 1, p. 201-210. Maringá: 2002. Disponível em: <ojs.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/download/2436/1707>. Acesso em 4 maio 2019.
MARTINS, Estevão de Rezende. A História Pensada: teoria e método na historiografia europeia do século XIX. São Paulo: Contexto, 2010. Disponível em: <https://bv4.digitalpages.com.br/?from=continue-lendo#/legacy/1558>. Acesso em: 3 maio 2019.
PACHECO, Isabel.‘O que é História Cultural?’ – Peter Burke (Resumo Ampliado). UESC: 200-?. Disponível em: <http://www.uesc.br/icer/resenhas/historia_cultural.pdf>. Acesso em: 5 maio 2019.

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