O que esconde atrás dessa maquiagem, Coringa?

O que há por trás da maquiagem de palhaço do Coringa? Talvez uma espécie de lado oculto da lua, que reside em todos os seres humanos. Aquilo que a psicanálise chama de ID, ou seja, uma fonte de energia psíquica repleta de instintos e desejos inconscientes dominados pelo princípio do prazer. Um Tanatos, uma pulsão para a fantasia e a morte. O Joker é aquele que nos faz rir de sua própria dor.

O palhaço triste, indissociável de qualquer apresentação circense, o reverso da moeda de toda graça. Qualquer tentativa de compreendê-lo passa necessariamente pela ideia de que, por trás de toda piada autodepreciativa, há também um pedido desesperado de socorro. Ele quer atenção da sociedade, mas ao mesmo tempo sente um enorme ódio pela rejeição que sofre dela.

Sua baixa estima se reflete em seus vícios, tanto pelo cigarro, quanto pelos delírios. Suas ilusões podem ser tentativas de fugas semiconscientes da realidade, mas também podem significar uma doença mental severa. Ele não mata por prazer, embora esta seja a sua verdadeira arte. Um suicídio encenado, no qual todos ao seu redor precisam participar para renascerem juntos. A criança que morre para dar lugar aos adultos, todos palhaços. Ele assusta e aterroriza, não porque quer, mas porque o mundo é um lugar horroroso e sombrio. Suas risadas são constrangedoras, desanimadoras, e seu silêncio ensurdecedor.

Se já houve verdadeiros Coringas neste mundo, talvez tenham sido como alguns pilotos suicidas de avião, que supostamente lançaram suas aeronaves de maneira intencional contra o abismo, levando todos os passageiros consigo e deixando as autoridades desnorteadas. O sepulcro dessas tristes almas é a última morada dos segredos mais inefáveis da psicologia humana.

Como um tipo de vilão ideal, o Coringa é uma espécie de antítese literária da mitologia do herói. Enquanto este precisa descer até o fundo do inferno para conseguir renascer das cinzas, como uma borboleta nascendo da metamorfose de uma lagarta, aquele parece condenado a ser expulso do céu e rastejar nas profundezas da alma para todo o sempre, sem nenhuma perspectiva de redenção. Talvez a verdadeira e única característica que diferencia vilão e herói seja esta: o herói ainda não viveu tempo suficiente para se tornar também um vilão; e o vilão também não viveu o bastante para exercer novamente um grande ato de bravura ou nobreza, sendo finalmente perdoado por Deus – e ganhando liberdade para morrer em paz consigo mesmo.

Neste sentido, a grande contribuição do Coringa ao mundo da psicologia, e também da ficção, é dar forma teatral e cômica a uma enorme amálgama de sentimentos e personalidades consideradas limítrofes e conflitantes, irracionais ou marginais, mas que quase sempre percebemos presentes em nós mesmos, ou em pessoas conhecidas, convivendo lado a lado com (um pouco de) lucidez. Desde um simples sedutor, passando pelo trambiqueiro, pelo psicopata, até chegar ao terrorista. A maquiagem do Joker é também sua máscara, sua “persona”, sua personalidade; uma casca de tartaruga, que lhe protege contra o julgamento moral do mundo exterior. Por trás do sorriso de nervoso e da cara borrada, encontra-se alguém desesperado por ajuda e atenção, assoberbado por sentimentos humanos, demasiado humanos.

Angústia, alegria, raiva, prazer, mágoa, desprezo, ódio, amor, ciúme, empatia, inveja, ansiedade, saudade. Para além do picadeiro, da corda bamba e dos malabares, o palhaço do crime procura, de fato, equilibrar-se naqueles sentimentos. Eles são os verdadeiros instrumentos de trabalho do Coringa, que pode ter sua versão brasileira nos famosos versos de Acrobata da Dor (1893), do poeta simbolista Cruz e Sousa*, com o qual encerro esta medíocre e crônica lamúria:

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta…

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d’aço…

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

cruz-e-sousa*João da Cruz e Sousa foi um poeta brasileiro. Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos precursores do simbolismo no Brasil. Nasceu em 24 Novembro 1861 (Desterro, atual Florianópolis – SC, Brasil). Morreu em 19 Março 1898 (Sítio, Brasil).

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