Globalização e Intercâmbio Cultural: da Antiguidade a Idade Média

O ser humano olha para as estrelas e imagina que mundos distantes estarão escondidos a milhões de anos-luz, atrás de nuvens de hélio, hidrogênio e matéria escura. No caso do descobrimento de vida inteligente, aqui ou lá, que incríveis culturas e seres com os quais teríamos relações? Modos de pensar, viver, trabalhar, vestir e amar tão distintos que não teríamos dúvidas de que se tratam de estrangeiros muito afastados de nós – porém vivendo em nosso mesmo Universo.

Houve um tempo, antes das grandes navegações globais europeias e da globalização, em que esses seres e mundos desconhecidos estavam na própria Terra – tão próximos que poderíamos alcançá-los apenas atravessando algumas centenas de quilômetros, florestas misteriosas, cadeias de montanhas semelhantes a meteoritos rochosos e desertos tão desoladores quanto o vácuo interestelar. Porém as dificuldades de logística e contato eram, muitas vezes, celestiais. A cultura humana era, então, muito fragmentada e os habitantes comuns de um lugar, na maioria das vezes, não faziam boa ideia do que existia após a travessia de um mar como o Mediterrâneo ou o Índico, deixando que a imaginação preenchesse a lacuna do conhecimento. Com exceção de culturas localizadas no Oriente Médio, durante milênios grandes civilizações como a Oriental e a Ocidental tiveram pouco entrelaçamento.

Podemos recordar, contudo, algumas experiências interessantes de contato pré-moderno entre habitantes de lugares longínquos, a começar pela antiguidade. Por exemplo: relatos do historiador grego Heródoto já davam conta de que, a mando do faraó Necho II, por volta de 700 anos antes de Cristo, embarcações fenícias teriam completado a circunavegação da África, descendo pela costa leste e retornando ao Mediterrâneo pelo estreito de Gibraltar. Além disto, informações do estudioso romano Plínio, o Velho, sugerem que, por volta da mesma época dos fenícios, navegadores cartaginenes alcançaram a costa ocidental da África e o norte da Europa. E podemos ir muito mais adiante.

Durante o reinado de Augusto no Império Romano (27 a.C. – 14 d.C.), veio de um reino indiano uma comitiva diplomática até a cidade de Atenas, composta, entre outros, por um monge jainista ou budista. Este, no intuito de demonstrar sua fé, praticou autoimolação, ou seja, ateou fogo a si mesmo – fato que causou uma grande impressão na cidade. Sua lápide ainda existe. A Índia, lar de convívio de muitas tradições singulares e, por vezes, distintas, naquele tempo já abrigava religiões tão exóticas como o judaísmo, seguido por descendentes de comerciantes provindos da Judeia alguns séculos antes de Cristo e, noutra migração, após a destruição de Jerusalém pelos romanos no ano 70 desta era, época em que muito comércio já se fazia entre portos romanos e indianos – o que proporcionou aos atuais historiadores o encontro de vários artefatos indianos em território romano e vice-versa. Na Índia os judeus prosperaram em algumas comunidades e puderam viver de algum modo livres do antissemitismo que prevaleceu no ocidente. Contudo, seu alcance não se limitou a Índia pois, durante a Idade Média, muitos comerciante judeus se embrenharam na mítica rota da seda que, por sua vez, os levou até a China, onde também estabeleceram morada, sobretudo na cidade de Kaifeng, capital de várias dinastias chinesas dos anos 913 a 1127 d.C. Alguns descendentes desses antigos imigrantes judeus ainda vivem lá e são conhecidos como Judeus de Kaifeng.

O Império Romano manteve algum contato diplomático pontual com os povos do oriente, como os chineses, que também enviaram missões diplomáticas ao encontro do Imperador Augusto, e foram notados por sua aparência e modos “de outro mundo”. Por volta do ano 100 d.C., um emissário chinês chegou à Mesopotâmia, ainda controlada pelos romanos, e deixou escritos sobre o que viu e ouviu acerca das terras fora do domínio chinês. Roma era conhecida entre os orientais como Daqin, uma espécie de China ao contrário. Durante um período de paz entre Roma e o Império Parta, o viajante romano Maes Titianus concluiu uma jornada pela Ásia Central até as portas da China, próximo a atual cidade de Kashgar, junto aos montes Pamir e o deserto de Taklamakan. Quase um século mais tarde, uma delegação romana foi enviada ao imperador Huan; a título de homenagens, foram levadas várias iguarias de animais africanos, como chifres de rinoceronte e cascos de tartaruga – indícios sugestivos de que a bestialidade já era parte importante do folclore humano ao redor do globo, além de ser elemento culturalmente intercambiável.

Na expansão do cristianismo no Ocidente, já nos últimos suspiros de Roma, alguns concílios ecumênicos de patriarcas e bispos das principais comunidades cristãs ao longo do Mediterrâneo provocaram cisão no seio da Igreja, o que ao longo dos séculos levou muitos grupos cristãos orientais (neste caso, no chamado Oriente Próximo ou Médio), praticamente desconhecidos na Europa Medieval, apartados de seus pares ocidentais pela discórdia dogmática, a desenvolverem uma religião de origem comum com o catolicismo, mas ainda assim distinta e independente – quando não herética – em relação aos seus pares de Roma e Constantinopla.

A partir de então, o assim chamado cristianismo oriental, por vezes de orientação nestoriana, floresceu no Império Sassânida e Bizantino; no Irã, Iraque e Síria atuais; além de Etiópia, na África, e, como não poderia deixar de ser, na Índia e China, por onde missionários cristãos (quando não tinham a intenção obscura de traficar bichos-da-seda para Constantinopla) carregavam sua fé muitos séculos antes dos missionários jesuítas ibéricos de além mar, que chegaram ao Oriente somente no séc. XVI. Conta-se que, na Índia, os descendentes desses cristãos orientais medievais são chamados de Cristãos de São Tomé, por acreditar-se que o apóstolo Tomé teria sido o primeiro missionário a pregar naquelas terras; sendo que, quando os portugueses chegaram por lá, mil e quinhentos anos depois de Tomé, supostamente encontraram farta crença popular sobre o suposto martírio do santo por lanças hindus. Todavia, este tema ainda é controverso, pois também se afirma que esses tais cristãos na Índia nunca existiram, a não ser na mente dos navegadores portugueses da época, que praticamente desconheciam qualquer outra fé que não fosse a cristã ou a muçulmana. Assim, tomados por fantasias de distantes reinos cristãos, quiseram crer que os templos hinduístas fossem manifestações exóticas da fé em Cristo.

Mais certo é que China, em meados do século VII d.C., durante a dinastia Tang, missionários cristãos orientais chegaram para divulgar a sua fé entre os habitantes locais e floresceram em algumas comunidades por cerca de duzentos anos, tendo erigido inclusive um famoso monumento conhecido Estela Nestoriana, esculpido em caracteres chineses e comemorativo dos 150 anos de cristianismo na China, por volta do ano  790 d.C.. Porém, algumas décadas depois, religiões consideradas exóticas como budismo, zoroastrismo e cristianismo foram repentinamente suprimidas, o que levou ao declínio do cristianismo na China por séculos. Posteriormente, durante o domínio mongol e a chamada Pax Mongolica em toda Eurásia, no século XIII, o cristianismo voltou a encontrar algum terreno fértil no oriente, sobretudo porque muitos mongóis já seguiam o cristianismo nestoriano.

Cabe aqui um parêntese: neste meio tempo, a América, por volta do ano 1000 d.C., viu aportar na ilha de Terra Nova, atual Canadá, os primeiros navegadores europeus. Não eram espanhóis, mas vikings comandados pelo nórdico Leif Erikson, que – após explorarem o gelo do Ártico, além das atuais Rússia, Islândia e Groenlândia – se estabeleceram também na América do Norte, por cerca de dez anos, e a batizaram de Vinlândia; uma colônia que não deixou maiores frutos, depois de conflitos com os nativos ameríndios. E, enquanto isto, os nativos da polinésia colonizavam as últimas ilhas ainda desabitadas da Oceania: Havaí e Páscoa.

Após a captura de Bagdá pelos mongóis em 1258 e o fim da era de ouro do islamismo no oriente médio, um cristão mongol de Pequim (percebe-se aqui o sincretismo cultural avançado), chamado Rabban Bar Sauma se estabeleceu na mesopotâmia com seu discípulo Rabban Markos. Mais tarde, Markos foi escolhido como patriarca da igreja cristã oriental e enviou seu mestre Bar Sauma à várias cortes da Europa; entre elas, Roma, Paris e Bordeaux – pouco antes do retorno do famoso comerciante veneziano Marco Polo de sua estadia na China de Kublai Khan, neto do conquistador Gengis Khan. Posteriormente, Bar Sauma deixou escritos análogos aos de Marco Polo, mas sob ângulo reverso. Por volta do mesmo período histórico, os exércitos de Kublai tentaram, sem sucesso, invadir o Japão e a ilha de Java, sendo que o império mongol, apesar do intenso contato com outros povos e culturas, não conseguiu se expandir além mar, sendo paulatinamente dividido entre os descendentes de Gengis. Algumas décadas mais tarde, os mongóis foram expulsos da China, que veio a se tornar uma nação ensimesmada sob a dinastia Ming – não sem antes legar ao Oceano Índico uma série de viagens marítimas comandadas pelo almirante Zheng He, que alcançou terras tão distantes quanto Tailândia, Malásia, Índia, Arábia e e costa leste da África; isto quase cem anos antes das viagens de Colombo, porém ao mesmo tempo em que os portugueses reconheciam o arquipélago dos Açores e a costa oeste africana.

Ainda no séc. XIII d.C., antes das histórias maravilhosas de Polo sobre o oriente chegarem à fama na Europa, enviados do Papa e do rei franco em busca de informações e alianças junto às cortes mongóis na Ásia Central, como Giovanni del Carpini e William de Rubruck, relataram casos notáveis de europeus livres (geralmente comerciantes/viajantes) ou escravizados (levados à força pelos guerreiros mongóis que chegaram à Europa Oriental) vivendo ao longo da rota da seda e em Caracórum, capital do Império Mongol por aproximadamente 30 anos. Catai e sua capital Cambalique – lugares previamente descritos por Marco Polo – foram identificadas, respectivamente, como China e Pequim apenas na modernidade.

Mas Polo não foi o único veneziano que efetivamente morou na China ainda durante a Idade Média. Quanzhou, um dos primeiros portos chineses para quem chega do oeste, abrigou uma pequena colônia de comerciantes genoveses; Yangzhou, próxima a atual Xangai, foi outro importante centro comercial e abrigou, na mesma época em que a estela nestoriana foi erguida, negociantes persas e árabes, posteriormente banidos em conjunto com o cristianismo oriental. Já um século após a visita de Marco Polo a China, Yangzhou acolheu alguns comerciantes latinos (europeus ocidentais), como os parentes de Catarina Vilioni, que eram genoveses e venezianos, e que após sua morte lhe deixaram uma lápide com epitáfio em italiano no local. Na mesma cidade e época (final dos anos 1300 d.C.), o missionário franciscano Odorico de Pordenone relatou a presença de algumas igrejas cristãs orientais, as quais haviam voltado a frutificar durante a Pax Mongolica.

Para o europeu medieval comum, os relatos de cristãos vivendo em outras partes do mundo além do islã geraram lendas como a de “Preste João”, que supostamente seria um rico rei cristão que estaria disposto a ajudar os católicos que, em suas mentalidades belicistas típicas do período, ainda ansiavam por travar uma batalha definitiva pela Terra Santa de Jerusalém nas Cruzadas. Oportunamente, os primeiros portugueses que descobriram o caminho marítimo em direção à Índia, contornando o continente africano, além de supostamente confundirem hindus com cristãos, também se convenceram de haver encontrado o bondoso monarca Preste João na Etiópia, que ainda hoje permanece como um reduto de cristãos na África.

Entrando já nas águas turbulentas do século XXI, navegando pelo espaço sem fim nunca antes desbravado, entre trilhões de estrelas, terras, planetas, povos e seres distintos, o ser humano, em busca de seu futuro, encontra importantes revelações em seu passado. Ainda não sabemos ao certo o que ocorre depois de Plutão; haverá um dia em que encontraremos lugares tão distintos como Cambalique, habitado por seres de Veneza que professam a religião do Império Galático Sassânida?

LEITURAS COMPLEMENTARES

http://elibrary.bsu.az/books_400/N_23.pdf
https://www.seer.ufrgs.br/aedos/article/view/9873
https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=4203907
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8148/tde-12032013-091351/en.php
http://www.transoxiana.com.ar/11/bueno-china_roma.html
http://www.egiptomania.com/historia/africa.htm
https://www.academia.edu/11320426/Bar_Saumas_Black_Sea_Journey_1287_
https://bit.ly/2IGtaUu
http://www.strangehistory.net/2018/03/16/buddhist-sets-himself-on-fire-in-ancient-greece/
http://www.silk-road.com/artl/carrub.shtml
https://www.academia.edu/1491420/Relatos_ocidentais_sobre_os_khanatos_mong%C3%B3is_s%C3%A9culo_XIII_
https://www.thegreatcoursesdaily.com/the-mongol-sack-of-baghdad-in-1258/
https://www.warhistoryonline.com/medieval/the-sack-of-baghdad-in-1258.html
https://www.bbc.co.uk/history/historic_figures/erikson_leif.shtml
http://www.silkroadfoundation.org/artl/paxmongolica.shtml
https://www.scmp.com/magazines/post-magazine/short-reads/article/2138170/what-happened-chinas-early-christians-and-why
https://www.academia.edu/30242287/DDB_Nestorian_Christianity_in_China_%E6%99%AF%E6%95%99
https://www.academia.edu/1945062/The_Roman_Empire_according_to_the_Ancient_Chinese_Sources
https://www.britannica.com/topic/Prester-John-legendary-ruler
https://www.historytoday.com/miscellanies/search-prester-john
http://www.chinadaily.com.cn/regional/2015-06/04/content_20912141.htm
http://www.touregypt.net/featurestories/nechoafrica.htm

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s