Inferno negro no Jardim do Éden: a escravização de africanos nos domínios da Bagdá medieval

Basra (em português, Baçorá). Sul do Iraque. Situada no encontro dos grandes rios Tigre e Eufrates, poucos quilômetros antes destes desaguarem no Golfo Pérsico, esta cidade de 1,5 milhão de habitantes foi fundada como uma base militar no ano de 636 d. C., durante o Califado Ortodoxo surgido logo após a morte do profeta Maomé, império político que dominou todo o Oriente Médio.

Esse é um dos locais com os verões mais quentes no planeta, com as temperaturas durante o dia superando a marca dos 50 graus Celsius. Curiosamente, também é supostamente um dos locais de origem do mito religioso do Jardim do Éden, onde há fartura de águas, pântanos alagados e terras cultiváveis para colheitas. De lá, segundo o relato bíblico, Adão e Eva teriam sido expulsos do Paraíso para vagarem pelo mundo. Um de seus descendentes, Cam, filho de Noé, teria sido amaldiçoado por Deus.

Século XXI. Um grupo de crianças e homens negros aproveitam a oportunidade. Os carros, sujos pela areia do deserto que circunda a região, são um dos únicos ganha-pães possíveis para estes distintos moradores de Basra, que disputam a oportunidade de lavar veículos pertencentes aos “homens livres”, ou seja, os árabes brancos.

A cultura iraquiana é muito derivada do Islamismo e da divisão semi-tribal entre religiões. Minorias cristãs e brancas podem ser reconhecidas de alguma forma na sociedade. Negros islamizados são geralmente reconhecidos como iguais pelas autoridades. Irmãos muçulmanos. Mas a verdade social é muito mais cruel.

Após o fim do Califado Ortodoxo, em 661, sucederam-se no poder o Califado Omíada (661-750) e o Califado Abássida (750-1299), este último com capital em Bagdá, no período que ficou conhecido como Idade de Ouro Islâmica (famosa no Ocidente pelo imaginário associado ao livro As Mil e Uma Noites e pelo personagem Aladdin). A região da antiga Mesopotâmia (atual Iraque), durante o apogeu do Islã, tornou-se o centro cultural do mundo, numa época em que grandes embarcações carregadas de negros escravizados cruzaram os mares.

Entre os séculos VII e IX, navios negreiros pilotados por árabes muçulmanos capturavam na costa leste africana milhares de pessoas, que eram então levadas compulsoriamente através do Oceano Índico até o Iraque. Na região de Basra, os negros tornaram-se, sob olhar islâmico, os amaldiçoados filhos de Cam: condenados pelos árabes a servirem como escravos nas grandes plantações e no manejo das terras alagadas, sob o calor inclemente e o sol escaldante. O inferno no paraíso. Este mesmo tipo de argumento bíblico também foi utilizado pelos colonizadores europeus para justificar a escravidão na América.

Como na Roma Antiga, os escravizados de Baçorá foram protagonistas de grandes revoltas no período, sendo a principal delas a Rebelião Zanje. Como os negros eram oriundos de uma região conhecida pelos árabes como Zanzibar (que, naquela época, poderia ter se referido a toda costa conhecida da África Subsaariana), o nome Zanje passou a servir-lhes de denominação.

Houve três grandes conflitos prévios entre a população negra escravizada e a sociedade árabe branca, entre os anos de 689, 690 e 694, que não renderam grandes frutos. Mas durante os anos 860, o Califado Abássida encontrava-se enfraquecido por disputas internas de poder e, entre 869 e 883, os africanos escravizados tiveram grande êxito em suas lutas de guerrilha nos rios, alagados e cidades do sul do Iraque, impelindo o exército abássida a retrair-se para o norte e criando sua própria capital no sul, al-Mukhtarah.

A escravidão foi oficialmente abolida no séc. XX no Iraque, porém ainda persiste o inferno negro no suposto paraíso. Embora os árabes iraquianos neguem qualquer discriminação, a população negra do país – em sua grande maioria islamizada – continua na prática sem acesso a educação, que leva ao subemprego ou à mendicância, e vice-versa. Além disto, o casamento inter-racial é extremamente mal visto pela sociedade e, cotidianamente, a população árabe se refere aos negros como “eabd”: escravos.

Após a eleição de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, um início de consciência fraterna entre os negros parece ter surgido no Iraque. A comunidade afrodescendente do país muçulmano alcança, entre algumas fontes, entre 1,5 e 2 milhões de pessoas (aproximadamente 5% da população total da nação), que reivindicam melhor acesso à educação, leis anti-discriminatórias, representatividade no parlamento e políticas afirmativas, aos moldes norte-americanos. Mas a resistência que encontram em um Estado historicamente dilacerado por guerras fratricidas, ou por invasões imperialistas estrangeiras, é enorme.

Para além da árdua tarefa de reconhecerem-se a si próprios numa sociedade que não os acolhe – seja por preconceito racial, cultural ou religioso – os negros iraquianos fazem lembrar ao Ocidente a dimensão absurda e nefasta da imigração forçada de africanos para fins escravagistas (a chamada Diáspora Africana), que ocorreu não apenas na América Colonial, mas também no Mundo Islâmico durante praticamente toda a Idade Média.

Quantas milhões de vidas negras foram ceifadas nas plantações do Oriente Médio por mais de 1 milênio, seja no período dos Califas, seja posteriormente durante o Império Otomano, já na Idade Moderna? É difícil afirmar com precisão. Infelizmente, nós humanos temos o poder de transformar o paraíso num calabouço infernal. Mas também estamos capacitados para promover o oposto disto. O que resta é o desejo de que tal ultraje contra a humanidade jamais se repita.

LEITURAS SUGERIDAS

https://minorityrights.org/minorities/black-iraqis/
http://www.ipsnews.net/2011/10/to-be-black-in-iraq/
http://www.afropedea.org/afro-iraqi
https://www.al-monitor.com/pulse/originals/2013/06/black-iraqis-face-discrimination-racism.html
https://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=96977550
https://www.nytimes.com/2014/07/23/opinion/will-iraqi-blacks-win-justice.html
https://www.encyclopedia.com/literature-and-arts/literature-other-modern-languages/asian-literature/thousand-and-one-nights

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