O que é a Nova História: reflexões a partir de Le Goff, Braudel, Burke e Guy Bois

Jacques Le Goff, em seu livro A História Nova (1990 apud SOUZA, 199-?), destaca que o grande número de enfoques e gêneros da Nova História foram bem definidos por uma espécie de ataque ao que era visto como uma estreiteza epistemológica da história positivista, além da abertura de frentes novas de pesquisa através do auxílio de outras ciências. Sendo assim, várias disciplinas contribuíram para essa espécie de revolução no fazer historiográfico, tais quais a sociologia, a economia; a antropologia, a psicologia, a psicanálise, a linguística e a demografia, permitindo a busca por novas fontes e recursos, outrora desprezados pelos historiadores.

De acordo com o livro Fundamentos Epistemológicos da História (VASCONCELOS, 2012, p. 55), a História dos Annales, tida como a principal base da chamada Nova História e da História Cultural, rompeu com três aspectos primordiais da historiografia anterior: 1) a idéia de que a História lida com a narrativa de fatos reais (distinguindo-se da ficção, que lida com fatos imaginários); 2) a idéia de que História é resultado de personagens e suas intenções; 3) a idéia de que o tempo é cronológico e linear.

A Nova História despiu-se dessas amarras acadêmicas anteriores. André Burguière (1990 apud SOUZA, 199-?) afirma que os historiadores dos Annales revolucionaram a historiografia no séc. XX tal qual os pintores impressionistas haviam revolucionado a pintura no séc. XIX, abandonando os salões e colocando-se nas ruas, nos campos, para retratar a vida comum. De igual forma, os novos historiadores valorizaram a vida do povo, das pessoas comuns, dos pobres, seus gestos e realizações. Além disso, retrataram aspectos opacos e marginalizados das sociedades, bem como, para além da mera narrativa factual dos acontecimentos, enfatizaram suas interpretações e representações. Áreas inovadoras foram privilegiadas, como o corpo, a alimentação, o vestuário, a sexualidade, a família e os comportamentos.

Outras conceitos-chaves abordados ao longo da evolução da Nova História são a longa duração; mentalidades; estrutura; modelo; mito; estruturas; permanências; tempos lentos; cultura material; técnicas; imaginário; tempo imediato, etc.

Alguns das novas fontes e metodologias de pesquisa utilizadas são próprias dos tempos longos e das estruturas, muito antes de se referirem aos acontecimentos da superfície histórica: estatísticas, curvas de preço, registros notariais, batismos, casamentos, contratos, testamentos, inventários, além do uso de fontes não escritas, como objetos arqueológicos, iconográficos e relatos orais (1990 apud SOUZA, 199-?).

Alguns problemas também surgem na interdisciplinaridade como, por exemplo, a questão das estruturas. A estrutura da qual Braudel fala, acerca da alimentação, diz respeito a fatores geográficos, produção, consumo, distribuição, tudo isso no tempo longo. Já para a antropologia, muito utilizada como suporte pelos novos historiadores, a estrutura e os estruturalismo dizem respeito sobretudo à linguagem. Nota-se que, de forma alguma, Braudel referia-se a temas históricos como relações simbólicas, culturais ou linguísticas do ser humano com o alimento (VASCONCELOS, 2012, p. 62).

Para Guy Bois (1990 apud SOUZA, 199-?), outra questão problemática se dá na relação da Nova História com o Marxismo, na medida em que muitas questões da História Nova foram inspiradas por métodos de pesquisa do materialismo dialético, porém a afinidade entre essas duas vertentes epistemológicas não é fácil de estabelecer.

O movimento de mudança da chamada História tradicional para algo diferente foi causado por uma percepção de inadequação do paradigma anterior, muito preso a certos dogmas da nação, da política, dos grandes nomes e datas. A historiografia moderna, por outro lado, já procura incorporar questões mais atuais, como descolonização, feminismo e ecologia, sendo que a História Nova não está alheia a isso. Em meados do séc. XX, Braudel, quando falava do Mediterrâneo, terra, mar, montanhas, ilhas, e a destruição de florestas para a construção de navios, por exemplo, já estava praticando uma certa narrativa ecológica (BURKE, 1992, p. 20).

Segundo Peter Burke (1992, p. 21), a Nova História apresenta esses e outros problemas de definição porque os historiadores hoje avançam em território não familiar e, por isso, acabam, num primeiro contato, fazendo uma imagem “negativa” das questões abordadas, tais quais viajantes europeus enxergam no diferente, no outro, o oposto de suas próprias histórias: a História “vista de baixo” (do povo) seria a inversão da História “vista de cima” (das elites); o Japão e a China seriam o “oposto” da Europa, etc.

Burke (1992, p. 21-23) continua, questionando: se a cultura popular é a cultura do povo, então quem é esse povo? Os pobres? As “classes subalternas“, como afirmava Gramsci? Analfabetos e incultos? E quando tratamos de educação, como podemos defini-la? Ela é transmitida apenas através de instituições oficiais, como escolas e universidades? O povo é simplesmente ignorante ou possui uma cultura e uma educação diferente? Por outro lado, fazer uma História da Cultura é complicado porque, tal qual a palavra “popular”, a própria definição de “cultura” não é terreno firme. Para contornar esse problema, a Nova História adota uma definição ampla de cultura, abraçando questões como estado, sociedade, grupos e sexo dentro do espectro da construção cultural – muito embora um novo problema seja criado a partir dessa amplitude: afinal, se tudo é cultura, o que ‘não’ é cultura, então?

Em resumo, esses são alguns dos grandes percursos e problemas trilhados pela Nova História.

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