Em busca de Hawthorne Abendsen: O Homem do Castelo Alto

Quem é o homem do castelo alto?

Dizem que ele mora num bunker nas montanhas rochosas, nos estados tampões entre o Grande Reich Nazista e os Estados Japoneses do Pacífico. Escreveu um livro subversivo, chamado “O Gafanhoto torna-se Pesado”, no qual os aliados franceses, ingleses e norte-americanos teriam ganhado a guerra.

Um tremendo disparate, se você quer saber. Um mundo sem nossos foguetes da Lufthansa com viagens turísticas aos céus sulfúricos de Vênus – mas com televisão. Sim! Seria ótimo poder desfrutar dos seus cantores de jazz favoritos, ao vivo e a cores, diretamente dos estúdios de Hollywood, em vez de respirar um pouco do ar puro da estrela da manhã.

nazi-times-squareSó que não. Arte degenerada não é o tipo de espírito que as raças superiores precisam respirar. Em vez disto, que tal um pouco de Beethoven, Bach, Brahms, Handel, Schumann, Strauss, Wagner? Muito melhor que ver amostras enlatadas – daquilo que supostamente seria a arte original americana – seria assistir, ao vivo, uma apresentação da Nordwestdeutsche Philharmonie. Ou, quem sabe, representações em tinta óleo da infância idílica do Fuher em Oberösterreich, bem arranjadas em um museu de Manhattan, sem a presença de pessoas indignas de viver.

Suponho que o bunker onde vive esse Hawthorne Abendsen, o suposto autor de “O Gafanhoto”, seja na verdade uma Joy Division disfarçada, onde esse pregador do deserto recebe convivas para orgias com ninfas arianas de Munique ou gueixas escolhidas a dedo no Império Nipônico, bronzeadas pelo sol de Okinawa. Hum. Nada mais desprezível que um indivíduo colonizado e fraco, incapaz de resistir às tentações mais vulgares da carne.

Por que aqueles japas presunçosos, tão cheios do Tao, não atiram suas varetas do I-Ching com todo seu poder de artilharia pesada, sobre a casa desse louco Abendsen? Por que não o colocam numa jaula em Sacramento, onde os Pinocs, verdadeiros fantoches americanos, poderiam fazer justiça à moda antiga? Mas que se danem, não precisamos de olhos puxados em nosso mundo. Eles que se cuidem, pois serão os próximos a sentirem o ferrolho germânico.

high-castle-nazi-american-flagImagino o que aqueles velhos comunistas de Berkeley (como aquele tal de PKD, um escritor degenerado) estão pensando agora: uau, esse Abendsen é mesmo um visionário. Lapidou um mundo em que a União Soviética torna-se uma superpotência, dividindo a Alemanha e o resto do globo com os Estados Unidos. Que mundo livre para se viver… Deus me livre! Gostaria de saber como eles se sairiam sem nossas plantações sobre o leito do que foi o Mar Mediterrâneo antes de sua drenagem; ou sem nossas vistosas colheitas da Ucrânia à Península Arábica, nas terras que um dia foram povoadas por povos semitas.

Eu não me surpreenderia em saber que Hawthorne Abendsen é um judeu disfarçado. Modificado por inúmeras cirurgias plásticas. Realizadas, talvez, até mesmo nos melhores centros estéticos do Reich em Praga ou Katovice. Eles ainda estão andando entre nós, multiplicando-se como baratas, mais e mais, de modo que é impossível acabar com todos. Teremos que conceder falsos atestados de pureza racial para acalmar os ânimos da sociedade, ou conviver com a dúvida: será que meu vizinho é um deles?

Mas e se… Eles tivessem um disfarce tão perfeito que… Ninguém jamais desconfiaria? E se o próprio Fuher… Mein Gott! E se o próprio Goebbels fosse um deles? Mas tenho certeza que a Gestapo já teria descoberto há muito, muito tempo… Ele jamais teria chegado ao alto escalão do partido… A não ser que… A Gestapo também estivesse sob o controle de… Judeus…

The_Man_in_the_High_Castle-serieBem, é melhor não levar esse assunto adiante em meu grupo de estudos germânicos. Poderia levantar alguma suspeita, não é mesmo? Estou convicto sobre a minha pureza, mas não quero alimentar desconfianças e possíveis denúncias infundadas a meu respeito na comunidade. Porém… Espere um pouco… O melhor disfarce para um judeu infiltrado na sociedade seria… que nem ele mesmo soubesse que é judeu!

Será que somos todos judeus? A realidade em que vivemos, deste modo, com a vitória do Grande Reich, seria uma tremenda e terrível farsa, montada para nos alienar de nós mesmos – pois a única forma segura de tomar o controle do mundo seria fazendo com que ninguém no mundo soubesse que é dominado… É isso. Somos todos judeus…

Porra! Quem é, afinal, esse homem do castelo alto, que fica fazendo a gente ter idéias, como um intelectual homossexual, inapto à liberdade da disciplina e do trabalho? Acusem-se a si mesmos, se for necessário, mas façam alguma coisa!

Escutei algo. É você, Hawthorne Abendesen?

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